domingo, 11 de junho de 2017

Síndrome de vira latas e a realidade

   Eu acho muito engraçado essas pessoas que falam do tal complexo de vira-latas que o brasileiro supostamente possuiria. Tenho a impressão de que elas não vivem no mesmo país que eu vivo. Eu digo. Nós não temos esse complexo. Nós somos vira-latas!
   Quase nada funciona nesse país. A educação é uma das piores do mundo, segundo exames do PISA, o sistema de saúde é um lixo, as grandes cidades como o Rio de Janeiro são recheadas de favelas por quase todo lugar, o povo é mal-educado. O que tem pra se orgulhar aqui? Pouca coisa.
   Sempre que alguém fala desse tal complexo, eu tenho a impressão de que a pessoa que fala isso vive em um Brasil completamente diferente do qual eu vivo. O brasileiro em geral tem é complexo de mediocridade. Segundo Tom Jobim: "O sucesso no Brasil é ofensa pessoal para muitos". Ninguém pode se destacar em alguma coisa que já é tachado de arrogante. Tem que ser nivelado por baixo. O melhor exemplo são pedagogas que não admitem que crianças superdotadas ganhem educação especial por considerarem isso discriminação com as crianças mais lentas. Nenhum país tem índices excelentes com essa mentalidade.
   Existem coisas boas aqui? É claro que tem! Mas não a ponto de você estufar o peito e dizer: "Eu tenho orgulho de ser brasileiro!" Os problemas que temos por aqui são inúmeros e são maiores do que as nossas qualidades.
   Sempre tem alguém para dizer: "Ah, mas os países desenvolvidos também tem seus problemas!" Eu sei disso. Ninguém tá negando isso. Só que, colocando os nossos problemas e os dos países avançados numa balança, veremos que eles ainda saem muito na frente de nós. E dizer que tem países muito piores que nós também não ajuda muito. Podia ser pior? Podia. A pobreza na África ou no Haiti faz as nossas favelas parecerem a Noruega! Só que o fato deles serem piores não faz com que aqui seja um paraíso.
   E o subdesenvolvimento do Brasil não tem nada a ver com bobagens como determinismo geográfico, (que diz que os países tropicais seriam subdesenvolvidos por causa do clima quente, que tornaria os habitantes preguiçosos, o que é idiotice, pois isso ignora a existência da Austrália, que é quente e desenvolvida, e o fato de que o Oriente Médio era mais desenvolvido que a Europa na Idade Média) nem com a colonização portuguesa (ainda tem iludido que acha que se nós fossemos colonizados por holandeses, ingleses ou franceses seríamos desenvolvidos. Pura besteira! Quem fala isso ignora que temos um vizinho ainda mais miserável, que é o Suriname, que fala holandês!. Ou as inúmeras ilhas do Caribe, colonizadas por ingleses!). Tem a ver com a cultura do brasileiro, que valoriza a malandragem, a desonestidade, a vagabundagem. Somos o país do jeitinho, da Lei de Gérson! Se a gente conseguir mudar essa cultura, o país certamente melhorará e muito. Só que isso infelizmente leva tempo e sacrifício.
   O tal "complexo de vira-latas", para mim parece argumento de quem quer fechar os olhos para a realidade e não quer admitir que esse país é um lixo. É através da auto-crítica que as coisas melhoram.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Minha relação com a síndrome de Asperger

   Desde criança eu sempre fui um pessoa muito tímida e fechada. Não que quando criança eu não gostasse de brincar com os amigos ou de ir para o play de casa, mas gostava de ficar mais no apartamento. Essa timidez foi aumentando com o passar do tempo até que chegou a adolescência. Nessa época, ela aflorou e eu me fechei ainda mais. Contribuia para isso o bullying que eu sofria na escola, em que faziam piadinhas sem graça com relação ao meu jeito de ser. Passei por um período de depressão, no qual eu só ficava pensando em morte. Recentemente, quando adulto, eu comecei a ter uma paranoia do que as outras pessoas achavam de mim, que eu era playboy, filhinho de papai, coisa que hoje eu sei que eu não sou.
   Foi só através de acompanhamento psicológico e psiquiátrico, que eu faço desde criança, que eu descobri que eu possuo síndrome de Asperger, que não é exatamente um autismo clássico, mas um modalidade mais branda dele, em que a pessoa tem como características: timidez exagerada, com uma grande dificuldade para se relacionar com outras pessoas, comportamentos repetitivos, linguagem formal para a idade, dificuldade de entender ironias, etc...
   O meu Asperger é considerado leve, de forma que não me prejudica tanto. O mais incrível é que quando eu descobri que tinha essa síndrome, a minha vida melhorou muito. Eu passei a entender os problemas que eu tinha, as fixações, as neuroses. Fiquei mais confiante e com maior garra para enfrentar a vida. Meus pais ficaram com receio de contar pra mim quando mais novo pois na época que eu estava com depressão, eu poderia ter ficado pior. Mesmo assim, eu não reclamo porque o que importa é que eu melhorei.
   Existe um vlogueiro no youtube chamado Nelson Marra, que é portador da síndrome de Asperger e faz vídeos falando sobre o portador e sua vida, sobre como a gente reage a ela. É um canal muito interessante. Se chama "Autismo com Amor".